quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cena extra: Halloween em Oxford

happy Halloween, gente \o/
Eu sei que o Brasil é um país chato em que essa data não é exatamente celebrada, mas como lá na terra da Malena Halloween é coisa séria, a data não podia passar em branco.
Depois de concluído o livro, fiquei me perguntando porque o Dia das Bruxas não fez parte dele. Então resolvi fazer um extra (que muito provavelmente vai entrar na nova edição do Bruxas) com uma cena que se passa nesta data. Cronologicamente, exatamente entre os acontecimentos da Casa Azul e o Baile de Inverno.
Se você ainda não leu As Bruxas de Oxford, seria melhor que não lesse. Não são spoilers monstros, mas enfim..
Divirtam-se



- Mãe, eu não vou sair pra pedir doces. - afirmei com veemência. Eu não tinha cabeça pra isso, não depois de tudo que já tinha acontecido.
Ela, contudo, estava convencida de que aquele 31 de outubro não poderia passar despercebido. Tinha invadido meu sótão com umapilha de fantasias antigas e o ânimo de uma mãe que adora embonecar sua filhinha. Eu não podia ver Toy, mas tinha certeza de que ele estava rindo de mim em algum lugar naquele quarto.
- Mas é Halloween! - mamãe argumentou, quase chorosa - Todas as crianças saem pra pedir doces.
- Eu tenho 15 anos! - exclamei, quase gritando, e imediatamente olhei em volta, à espera de alguma consequência potencialmente desastrosa. Nada aconteceu.
Mamãe me olhou num misto de irritação e frutração típicos de quando ela se dava conta de que sua caçulinha não era mais a criança que a obedecia cegamente. Muita coisa tinha mudado desde que chegáramos a Oxford. Eu tinha mudado. O Dia das Bruxas de repente me parecia uma piada de muito mau gosto.
- Bom, senhora "eu tenho 15 anos", o que as crianças da sua idade fazem no Halloween?
Bufei, cansada.
- Não sei. Vão a festas, eu acho.
- Como aquela a que seus irmãos vão hoje?
A festa de Halloween de Joanna Carter, a filha do prefeito de Oxford, era praticamente um evento oficial da cidade, a que todos os alunos da OSD eram convidados. Eu tinha visto o panfleto, é claro, mas meu ânimo estava contaminado pela bile que subia pela minha garganta toda vez que eu olhava pela janela e me lembrava do que tinha acontecido no meu quintal. Como eu poderia ir à festa que fosse?
- Malena, eu falei com você. - mamãe estalou os dedos diante de mim - Você não vai a essa festa?
- Não estou afim. - murmurei. Ela suspirou e acariciou meus cabelos.
- Isso é por causa do Sam, não ´´?
Minha garganta encolheu. Tudo o que mamãe sabia era que Sam e eu tínhamos terminado - embora nada tivesse realmente começado entre nós, pra falar a verdade. Depois do baile, ele ainda não tinha me procurado. Nem iria.
Quando precisei justificar minha tristeza, usei Sam como desculpa pra minha mãe, ainda que não fosse inteiramente uma mentira. Era melhor do que a alternativa.
Como eu não respondi nada, mamãe continuou:
- Sabe, o melhor jeito de tirar algo da cabeça é se distraindo. E você não sai mais de casa. Desse jeito não vai esquecer! - ela me deu um beijo na testa - Saia. Passe um tempo com os seus amigos. Com certeza vai se sentir melhor.
Ponderei aquilo por algum tempo. Ainda que eu soubesse que ela tinha uma pontinha de razão, mamãe não entendia a extensão e a gravidade do que eu vinha tentando esquecer. Eu tinha.. droga, eu não conseguia nem dizer.
Mas ela não ia me deixar em paz. E eu não ia me deixar em paz. Antigamente, antes de o Dia das Bruxas ser um evento diário, eu adorava o Halloween. E agora eu não era mais bruxa. Eu precisava retomar a minha vida.
- Tá bom, você venceu. - falei, e ela sorriu - Eu vou.
- Sabia que você ia ceder ao espírito do Halloween! - ela comemorou, e ergueu as fantasias que tinha jogado na minha cama - E ai, o que vai ser? Camponesa zumbi? Vampira? Bruxa?

Horas mais tarde, eu estava pronta. Me olhei no espelho e ri da ironia da minha própria escolha. Com aquele chapéu cônico e aquela varinha, aliados ao vestido preto que contrastava com a quase transparência da minha pele, eu parecia um cosplay pobre de Luna Lovegood.
- É essa a ideia que as pessoas fazem das bruxas hoje em dia? - Toy perguntou, surgindo ao meu lado. Eu dei uma risadinha.
- Pois é. Achei que se eu fosse vestida só de Malena as pessoas perderiam a piada.
- Talvez. Mas você não é mais bruxa.
- Ouch. Obrigada, Toy. Eu quase tinha me esquecido.
- Disponha. Quer que eu a acompanhe?
Bufei. Seria ótimo, mas não faria diferença, já que nós não poderíamos nos falar.
Se bem que era Halloween. Um gato preto falante nem seria assim tão bizarro.
- Não. Eu vou ficar bem. - garanti, mas eu não tinha tanta certeza.

Eu nunca tinha ido a uma festa de Halloween antes. Nem nenhuma festa, pra falar a verdade. Quando morávamos em Oklahoma City, mamãe não permitia que eu fosse a festas sem supervisão adulta. Mas como estávamos em Oxford - onde todo mundo conhecia todo mundo -, e já que era na casa do prefeito, ela deduziu que não havia nada de errado e que eu estaria segura.
Mas se havia algum adulto ali, ele ou ela estava muito bem escondido. Em toda a mansão eu via adolescentes, rostos conhecidos da escola e gente que eu imaginava ter vindo de outras cidades vizinhas. Não havia nenhum adulto supervisionando os barris de cerveja, as pessoas destruindo a sala de estar, nem a vodca sendo misturada ao ponche ao ponche aparentemente inocente.
Por todo lado, vi enfermeiras ensanguentadas, quarterbacks zumbis, índios com flechas falsas cravadas na cabeça, noivas cadáver.
- E aí, Malena! - ouvi a voz simpática da Hellen logo atrás de mim e me virei. Ela e Haley estavam vestidas como aquelas garotinhas gêmeas do mal de O Iluminado.
- Adorei a fantasia - falei, e elas sorriram.
- A gente não sabia que você vinha! - Haley me falou, e então seu queixo caiu, como se tivesse notado algo muito importante - Ei, espera aí. Seus irmãos gatos vieram?
- Sim. - revirei os olhos, sem conseguir me controlar.
- Todos eles? - Hellen insistiu.
- Não. Só o Dylan, o Eric e o Fred.
Um minuto de silêncio enquanto elas se comunicavam com o olhar.
- A gente já volta. - anunciaram, em uníssono.
Observei as duas sendo engolidas pela massa de pessoas. Ótimo, agora estava sozinha. Rodeada de gente conhecida, mas completamente sozinha.
Estava indo em direção à sala pra ver se encontrava com algum outro conhecido, quando trombei em alguém e tomei um verdadeiro banho de ponche. Ergui os olhos para me desculpar, e travei.
Fui imediatamente inundada pelo mar esmeralda que eram seus olhos. Foi como se o tempo parasse. Não, foi como se o tempo tivesse voltado. Seus olhos ali, fixos aos meus, me engolindo viva e fazendo meu coração explodir às badaladas, como se nada tivesse acontecido. Como se Megan não tivesse morrido. Como se ele não me odiasse por tê-la matado.
Então notei que havia algo lá, algo que eu não via antes em seus maravilhosos olhos verdes.
Havia dor. Muita dor. Tanta dor que me senti sufocada.
E assim, tão rápido quanto me olhara, Sam se desculpou num murmúrio quase inaudível e desapareceu.
Meu estômago embrulhou, e eu senti que precisava ir embora. Eu estava ali a menos de uma hora, mas mais do que tudo, eu queria a minha casa.



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Um comentário:

Alice Machado disse...

Só isso????? Como assim é só isso???
Pode tratar de continuar essa cena, mesmo que o resto não entre!!!